Era o primeiro dia de sol depois de meses e meses de fortes
tempestades. A Mulher Maravilha, que havia lutado o máximo para segurá-las,
finalmente se deixou dar um tempo pra respirar.
Ao voar pelas ruas, viu uma árvore. Essa árvore me parece muito familiar, pensou. E decidiu
confrontá-la.
“Eu te conheço”, ela afirmou quando parou ao lado da árvore.
Era uma árvore linda. A maioria das folhas pareciam ter
acabado de crescer, novinhas, enquanto algumas pareciam mais velhas, mais
escuras.
“Você..” A Árvore falou, com a voz mais suave e relaxada.
“Eu te conheço”, a Mulher Maravilha repetiu, fingindo
impaciência.
Após uma risada, a Árvore falou “sim sim. Tinha me esquecido
que você tem uma certa atitude. Enfim, estava te procurando. Preciso falar
com..”
“Perai, como assim? Como você sabe que eu tenho atitude?”, a
Mulher Maravilha interrompeu.
“Ué, você mesma disse que me conhecia, não?”
“Eu te conhecer não é a mesma coisa que você me conhecer.”
Claro, a Árvore
pensou.
Apreensiva, a Mulher Maravilha desistiu do confronto, e foi
se afastando.
“Pare de fugir, Mulher Maravilha. Você não é tão má quanto
parece. Eu disse que preciso falar com você.”
Fugir. Fugir. Fugir.
A palavra girava em torno de sua cabeça. Parecia um íma.
Revoltada, virou e falou:
“Desculpa se estou sendo rude, mas você não me conhece. E
mesmo se conhecesse, não preciso que me fale o que sou ou não.”
A Árvore sorriu, e perguntou:
“Você não sabe, sabe? Ou melhor, não lembra.”
Confusa, a Mulher Maravilha perguntou do que a Árvore estava
falando.
“Eu e você. Somos um mesmo. Temos muitas diferenças, sim.
Mas, no final, somos a parte de um mesmo todo.”
“Você já foi uma das folhas dessa árvore. Mas um dia você
caiu. E ao invés de voltar pro nosso todo, você decidiu se transformar no que
você é, e nos proteger, para que ninguém mais caísse.”
A Mulher Maravilha não conseguia falar. Não conseguia se
mexer. Ela se sentia bem, mas ao mesmo tempo incomodada. Ela sabia que o que a
Árvore estava falando não era mentira. Ela sentia isso.
“Você provavelmente não se lembra”, a Árvore continuou,
“porque você presta tanta atenção nos outros, que esquece de se olhar de vez em
quando.”
A única coisa que conseguiu falar, foi perguntar o que a
Árvore precisava tanto falar com ela.
“Eu preciso te agradecer, e me desculpar. Você passou muito
tempo se dizendo sendo má, que todos nós acreditamos. E você nos protegeu de
todos esses meses de tempestades, e ninguém agradeceu. Então obrigada.”
“Mas eu quero que você saiba que você não precisa estar
pronta o tempo todo. Você não precisa estar por aí. Se uma tempestade cair, nós
conseguimos dar conta. Olhe para as outras árvores. Elas se molharam, sim, mas
continuam em pé.”
A Mulher Maravilha, que estava esse tempo todo de cabeça
baixa, olhou em volta.
“Outras folhas podem voar, e você pode voltar ao seu lugar
na árvore. Seu trabalho aqui está feito.”
A Mulher Maravilha respirou fundo, deu um sorriso, e sem
mais nenhuma palavra, desceu até o chão, e depois, subindo de galho em galho,
sem nenhuma ajuda de seus poderes, chegou ao seu lugar. E antes que ela pudesse
notar, ela tinha virado uma folha novamente.
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